terça-feira, 6 de janeiro de 2009

ANTES DE DEFENDER NOSSO PONTO DE VISTA COM VEEMÊNCIA (Samuel Rangel)


Não são poucas as vezes que esgrimamos nosso ponto de vista contra as lâminas de teses que não concordamos, e tomados pelo mal súbito da falta de humildade, classificamos como errado o ponto de vista alheio.

Mas um bom exercício para renovar essa humildade, é aquele em que, justamente no momento em que colocamos o dedo catedrático em riste, a um palmo do nosso nariz empinado, e bem a frente de nossa cara soberba , como se fôssemos pregar em vez de manifestar um pensamento, deixamos um pouco de lado a discussão para um simples teste.

Então com o dedo ali, fechamos primeiro um olho, e depois o outro. Essa simples atitude demonstra que as coisas mudam de lugar em razão do ponto de vista de cada um dos olhos, e se o ponto de vista não é o mesmo nem para nossos próprios olhos, que divergem entre si, como o ponto de vista poderia ser o mesmo para a pessoa com quem estamos discutindo?

É sempre bom levar em conta que o ponto de vista de uma pessoa depende de onde ela se encontra, mas também é influenciado pelo caminho que a conduziu até ali. Por isso é tolice retirar ou conceder-lhe toda a razão, como também seria presunção achar que a razão é absolutamente nossa.

domingo, 4 de janeiro de 2009

PESSOAS E DIVERSÕES. AS DIFERENÇAS E ALGUNS PRINCÍPIOS ÉTICOS (Samuel Rangel)


Nessa vida que nos é tão grata em surpresas, ensinamentos e revelações, aprendi algumas coisas que hoje me valem como trilhos, valores e conceitos que estão a todo tempo sussurrando bons conselhos e advertências, tão amáveis quanto a mãe que diz para a criança não por a mão no forno. E tal qual a criança, nem sempre atendo a esses conselhos com o devido cuidado. Por mais que os ouça, não raras vezes aparece uma criança arteira esticando um dedinho curioso que logo irá se queimar.
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Mas nos diálogos que a vida me trouxe,em uma das noites curitibanas, surgiu um tema interessante: relacionamentos divertidos. Percebi o quanto as pessoas buscam diversão nas outras pessoas, o que não é de se espantar. Mundo frio, obrigações sisudas e compromissos de gravata se encarregam de transformar nossa vida em algo tão chato quanto uma reunião de condomínio de um pombal de classe média. Mas ao término de cada reunião, uma multidão de pessoas sedentas sai enlouquecida atrás de alguma diversão. E estas pessoas normalmente encontram o que procuram.
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Tantas vezes, após dar as costas para o síndico, busquei em uma mesa de bar as gargalhadas enlatadas que estavam prontas para me serem servidas requentadas tão logo da minha chegada. Gravata no bolso e paletó na cadeira, lá estava eu com meus companheiros de copo rindo alto e sorrindo freneticamente a graça que nem tanto existe.
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Então ouço um dia o sussurro, dizendo carinhosamente a mim, que eu deveria aprender algumas diferenças.
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Sobre diferenças, lembro-me uma vez, em minha infância, de ter enfrentado um belo sermão de minha mãe ao retornar da feira com um repolho e sem a alface que ela havia me pedido. Alfaces e repolhos me pareciam tão iguais naquela época, pois eu não comia nem um nem outro. Eu preferia mesmo eram os bifes de casacas, feijão e fritas que me engordavam os dias. A minha adorável mãezinha, com a cátedra que só a maternidade responsável outorga, para me ensinar a diferença fez com que eu comece primeiro o repolho e depois o alface que tive que ir buscar. Embora verdes, eu descobri que a diferença estava na consistência e no sabor. Esse aprendizado me serve até os dias de hoje.
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A diferença entre pessoas e diversões está na consistência de cada uma..Não faltam bares de luminosos de colorido atraente que estão a nos chamar todas as noites, para estar com nossos, ou nem tão nossos companheiros de copo, amigos de boteco, colegas de gargalhadas e uma multidão de conhecidos de vista.
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E nos braços da ingenuidade, muitos são aqueles que começam a julgar edificadas suas amizades feitas em bares, erguidas no copo e com a argamassa do álcool e da gargalhada. Mas tão logo a cerveja acaba, a realidade vem mais dourada que os goles. Os companheiros de copo se vão quando o motivo da reunião acaba junto com a última gota. Os colegas de gargalhada se vão quando a graça da última piada tornou-se repetitiva. A multidão de conhecidos de vista é apagada de nossa memória tão logo eles desaparecem do nosso ângulo de vista. E então vamos para a casa dentro de nossa própria existência rever o que nos é verdadeiro e preparar-se para a reunião de condomínio do dia seguinte.
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Só que a professora que chamamos de vida, com o mesmo carinho que a Tia Arlete do Colégio Júlia Wanderley me ensinou o alfabeto na cartilha da Abelinha, também me é bondosa ao mudar o sabor do dia. Então o que ontem era gargalhada, hoje virou um nó na garganta. E os tijolos do alto do muro onde tentamos proteger nossa felicidade começam a desmoronar sobre nossas cabeças. A cada tijolo que cai sobre nós, um ferimento nos impede de tentar salvar o que resta. E tal qual todo humano colocado nesta terra por Deus, ou pelo destino se preferir, nossa existência é bordada com fios de alegrias e tristezas.
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Mas dessa vez, tristes, ao chegarmos naquela mesa de bar, nem os companheiros de copo, nem os amigos de boteco, nem os colegas de gargalhadas, e nem mesmo aquela multidão de conhecidos de vista, estará disposta a nos ouvir em lamúrias.
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Então seremos a mais pura expressão do solitário em meio a multidão. Tentamos disfarçar nossa tristeza mas não somos tão atraentes aos nossos colegas de bar, pois a tristeza nos tirou a graça. Sozinhos por dentro e aparentemente acompanhados, explodimos em vontade de voltar para a casa.
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Chegando em casa, o cão divertido vem nos procurar no portão, com o rabo balançando e uma língua bobona para fora. Mas ignoramos o cão, e ainda assim ele nos acompanha até a porta de nossa casa. Enquanto a chave roda no tambor, deixamos um olhar molhado dedicar uma atenção ao companheiro cão, e vemos nele, um olhar compatível com nosso sentimento.
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Depois de tanto tempo sozinho na mesa do bar, acompanhado por pessoas que são a nossa semelhança, é irônico que justamente no cão a gente possa encontrar a sensibilidade para compartilhar conosco a nossa tristeza. Tão inteligentes, nossos amigos estavam ocupados demais para prestar atenção em nós, enquanto o pobre cão, de tão pouca inteligência que acha graça na bola vermelha tantas vezes lançada no jardim, está lá, comungando conosco de nossa tristeza. Interessante que nestes momentos, o companheirismo as vezes chega a molhar os olhos do animal. Quem sabe isso explique o motivo de tantas pessoas lotarem suas casas com animais e a esvaziarem de pessoas.
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Mas o que houve com nossos companheiros de copo, amigos de boteco, colegas de gargalhadas e aquela multidão de conhecidos de vista?.Na realidade, não houve nada. Aliás nunca houve nada além da diversão. A divisão dos momentos era fundada única e exclusivamente na diversão que todos buscam após a reunião de condomínio, e se não há diversão, não há absolutamente mais nada.
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Justamente aí surge um problema para o qual a reflexão todo é proposta.
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É justo pensar em pessoas como sinônimo de diversão? Há ética nesse pensamento? Seria esse o motivo de tantos relacionamentos fundamentados exclusivamente em sexo, beleza e dinheiro?
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O mais divertido dos contos não se acaba antes de uma tristeza, e existe algo muito maior nas pessoas do que a simples capacidade que elas tem de nos fazer sorrir. Essas pessoas, tal qual eu e você, ele ou ela, são titulares de uma história perfeitamente imperfeita, e com a benção da vida, e sob a batuta de seu ministério, são titulares de sofrimentos e prazeres, tristezas e alegrias, para as quais não podemos estar desatentos, sob pena de fazer o humano perder o respeito pelo humano.
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É justamente uma questão de respeito que nos deve impedir de tratar as pessoas como diversão. Sejam amigos, familiares ou mesmo a pessoa com a qual nos relacionamos, não podemos trata-las como companheiros de copo, pois um dia a bebida acaba. Não podemos torná-los nossa piada, pois um dia a graça se vai e vamos então preferir a música. E nesse momento tratamos as pessoas como descartáveis? Trocamos os companheiros de copo e tudo está resolvido?
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Não há mal nenhum em procurar estar perto das pessoas que nos divertem e nos fazem rir, mas até onde estamos preparados para continuar ao lado delas quando a tristeza lhe vier? Se não estamos preparados para isso, não temos esse direito.
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A diferença entre as pessoas e a diversão, está na consistência que devemos perceber, quem sabe como alfaces e repolhos, apesar de que alguns gostem de se travestir.
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É sempre bom refletir sobre o que nos une às outras pessoas, para não ter relacionamentos tão voláteis quanto ao álcool.

AMAR A SI ATRAVÉS DO OUTRO (Samuel Rangel)


O quadro não é belo, nem nos traz qualquer alegria.Em cores acinzentadas vemos as pessoas perdidas pelo mundo em anomia mórbida.Os sorrisos não são sinceros e os abraços não transferem nada.Não se sabe exatamente por qual razão, mas homens e mulheres se perderam dentro de sua própria alma.
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Ensimesmados, buscam prazeres torpes e levianos, que não condizem com a profundidade e grandeza da alma.Deixam seus dias correrem rio abaixo buscando alguma alegria no sucesso, no dinheiro, na vaidade, nos belos carros, e em todos aqueles tristes pecados capitais.Pobres homens e mulheres que não se amam.
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Sim.Tudo começa pelo amor próprio.Vemos tantas pessoas mendigando emoções e carinhos, subjugadas à realidade imposta por valores globalizados, como se a felicidade verdadeira fosse artigo de luxo exposta em uma vitrine de uma fina loja de artigos destinados a uma elite da humanidade.E tudo começa pelo amor próprio, pois não é possível amar ao outro sem antes amar a si próprio.
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Precisamos, inevitavelmente, ter no próprio peito um carinho extremo pela nossa vida.
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Precisamos urgentemente ter a capacidade de admirar nossas atitudes.
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Precisamos ser o primeiro da fila dos fãs de nosso próprio caráter. Pronto.
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A partir do momento que isso acontece, estamos prontos para o amor.Estamos então habilitados para amar ao outro.
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E quando ganhamos este presente maravilhoso da vida, sentimento maior pelo outro, de forma inesperada e absolutamente mágica, percebemos que amar ao outro é um jeito muito especial e sensato de amar a si mesmo.Ao amar profundamente o outro, veremos em nossas atitudes algo tão belo e encantador que seremos capazes de perder o fôlego de tanto amor próprio.
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Na dignidade de nossas atitudes, passamos a nos ver como o grande cavalheiro em trajes de aço, sempre altivo e pronto para enfrentar os dragões do mundo.Na nossa sinceridade, perceberemos em nosso olho o brilho que só as vestes dos anjos carregam.Em nossa mão mais carinhosa e companheira, deitaremos o orgulho de conseguir ser pai, mãe, irmão, filho, esposo e esposa, amigos dos amigos.
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Então, perguntaremos nessa reflexão: Quantas vezes a expressão eu te amo saiu de nossa boca hoje?Quantas vezes nossa mão amparou ao outro?
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Quantas vezes ouvimos o grito mudo de um irmão, socorro que não foi pedido, e instintivamente, montando o cavalo de nosso coração partimos em socorro das pessoas que amamos?Vamos refletir, e recebamos todos o convite para ser um herói.
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Não o herói que voa ou que tem a força de parar o trem com o sopro, mas o herói humano, o mais real e belo dos heróis.
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Um herói que aprendeu que a melhor forma de amar a si, é amando ao outro, amando ao próximo, amando ao Ser humano.
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Levantemo-nos dessa sarjeta moral e alcancemos os Céus da vida.E não há dúvida de que é o amor que nos diferencia das outras criaturas.Um grande abraço a todos

VERGONHA DE SER BRASILEIRO (Samuel Rangel)


Publicado em www.anjosboemios.blogspot.com, Quinta-feira, 13 de Setembro de 2007
Volta a ser publicado aqui para que nunca esqueçamos dessa lição.


Em Curitiba 13 graus.O dia amanheceu estranho. Um silêncio pesava sobre as cabeças rápidas desse povo Curitibano.Não se pode ouvir um grito. Não se ouvia nem mesmo a intenção de reunir pessoas. A sensação era muito ruim. Tinha-se a impressão de que ele fora assaltado, sem reação, e enquanto o bandido corria, ele apenas fazia apontamentos do seu prejuízo. Aceitou sua pouca sorte.Em Curitiba 14 Graus.Dia 13 de setembro de 2007. Ontem, levou-se a termo o atestado de nossa burrice. Ontem, a portas fechadas, 40 senadores nos chamaram de idiotas. Ontem, ainda houve um que disse que a decisão no processo de Calheiros era a vitória da democracia. Aceitamos nossa pouca sorte.Em Curitiba 18 graus.E de nada adiantava o dia avançar, pois quanto mais o tempo passa, parece que mais o povo supera. A indignação muda vai sumindo em meio às tarefas do dia. O homem no seu trabalho não tem tempo de reagir. Apenas comenta com um sorriso amarelo a decisão dos seus representantes. E sorrindo aceitou a sua pouca sorte.Em Curitiba 25 graus.A dona de casa tempera o feijão e o arroz, e nem se da conta da falta do Bife. Uma televisão ligada em um cômodo da casa grita sozinha, como louca, sem merecer a atenção de ninguém. Como o seu feijão vai desmanchando, desmanchou-se o orgulho do povo que anda afoito pela rua. Não temos tempo de gritar. Não temos tempo de se indignar. Aceita a sua pouca sorteEm Curitiba 0 grau.Nada. Nenhuma sorte.Um silêncio sórdido de quem não tem mais orgulho. Uma vergonha sem cor, sem voz, e sem testemunha. Quem somos nós que não reagimos, e nem falamos? Olhamos a política e suas paspalhices como se acontecessem na casa ao lado.A notícias não são boas. As paspalhices aconteceram bem aqui, em nossa casa, no meio de nossa gente, com aqueles que se dizem representantes do povo.E nós que só sentimos é vergonha de ver nossas camisas amarelas serem manchadas quando perdemos para a Argentina no futebol. Se tais absurdos acontecessem na vizinha Argentina, por certo o sangue correntino haveria de incitar uma reação.Nós, os brasileiro, apenas assistimos os fatos e aceitamos nossa nenhuma sorte.O que podemos fazer?Fazer não é lá nosso grande talento. Quem sabe uma sequela da ditadura militar. Como se uma voz sussurrasse em nossos ouvidos: Aceite. Aceite Aceite!!!E aceitamos.Mensalão e Marcos Valério? Aceitamos.Narcotráfico e Máfia dos Jogos? Aceitamos.Impostos em 43 porcento, e 33 porcento de malversação do dinheiro público? Aceitamos.Polícia Corrupta e Eleições da Falsa Democracia? Aceitamos.Gente morrendo nos hospitais, e os remédios mais caros do mundo? Aceitamos.Favelas podres e gente sendo tratada como animal? Aceitamos.Aceitamos a vergonha. Nos dão as vestes mais ridículas da insensatez, e as vestimos sem pompa.Nos dão a bebida amarga da desilusão, e a tomamos em um só gole. Nos servem alimentos podres de esperança perdida, e mastigamos. Aceitando nossa nenhuma sorte.Será que não é conosco?Como você se sente?Como se sente seu filho?E seu pai, que tantos valores tentou lhe passar, como se sente?Apenas posso dizer que ontem vi Calheiros sorrir, e sem querer fazer nenhuma intriga, parece que era de você.
Postado por Samuel Ricardo Rangel Silveira às 12:18

AH! ... ESSAS MULHERES MARAVILHOSAS (Samuel Rangel)

Segunda-feira, 3 de Setembro de 2007

Ah! ... essas mulheres maravilhosas
ora voluntariosas, ora orgulhosas
ora cheirosas e gostosas
ora melosas e chorosas,
que passeiam em nossos olhares
derrubando os vasos de nossa alma
arrancando suspiros vulgares
nos levando o ar e a calma

Ah! ... essas mulheres dedicadas
ora engraçadas, ora irritadas
ora delicadas, ora determinadas
ora desnudadas e encantadas
que se deitam em nosso horizonte
confundindo o céu, a terra e o ar
sua imagem estampada em minha fronte
me impele e obriga a te amar

___x___

* E para não fazer de tudo poesia, eu ousaria ...

Mas a mulher que resplandece
a todo homem ela emudece
o destino há de ouvir a sua prece
pois há de encontrar o que merece

A mulher deseja um homem
que tenha predicado
pois todos os defeitos somem
só não pode ser viado

Ela deseja a maturidade de um Ansião
com a ingenuidade de um garotão
A sensibilidade de um cirurgião
com a pegada forte de um peão

Ela deseja a mente de um cientista
em um corpo de halterofilista
As mãos de um esteticista
com os braços de um maquinista

Que seja sensível e amado
e sacana como um advogado
esteja sempre bem humorado
com um gênio bem invocado

Há de encontrar esse parceiro
ainda que não seja verdadeiro
aos sábados um churrasqueiro
só em sua cama um putanheiro

Curvar então os homens deverão
perante a mulher e sua perfeiçãoe
diante de nossa incorreção
apenas pedir o sincero perdão

Postado por Samuel Ricardo Rangel Silveira em www.anjosboemios.blogspot.com às 10:44

FILOSOFIA CURTA E GROSSA

MULHER NÃO TRAI

Após meditar muito sobre o tema, cheguei a uma conclusão interessante tanto para os homens quanto para as mulheres. Não existe homem corno, pois a mulher não trai.Sim. Eu sei que parece estranho, mas pode acreditar.

A mulher não trai, ela apenas busca uma segunda opinião.

PESSOAS E INSTRUMENTOS MUSICAIS por Samuel Rangel

Domingo, 19 de Agosto de 2007

Entre pessoas e instrumentos musicais – Parte I



Não combina com os meus conceitos a idéia de que pessoas sejam objetos, mas exatamente por existir uma alma, características próprias, traços e detalhes que diferenciam um instrumento do outro, nesse mundão ondem as vezes da vontade de ser um ET, vejo pessoas com dificuldades em se relacionar, de encontrar um parceiro.

Então gostaria de fazer uma comparação, pedindo desculpas pelo humor, mas que ao menos permita fazer pensar em diferenças e desejos.

A iniciação na música não deve começar sem que antes se escolha um instrumento. Muitas vezes, escolhemos o instrumento que esta à mão. Normalmente um violão velho com cordas acabadas. Não raras vezes um atabaque. Mas com o passar do tempo, o contato com a música nos abre os ouvidos e o coração.Então olhamos para o velho violão e descobrimos que ele tem limites.

Em um dia de sorte quando sobra algum dinheiro, vamos então a uma loja e vemos violões novinhos, Fender, Takamine, Tajina, Yamaha. Olhamos encantados aquelas paredes repletas de opções. Essas opções nos deixam em dúvida. Como resolver?

Em que pese parecer um convite à promiscuidade, é de se pedir para afastar qualquer malícia. Se há dúvida, toque, primeiro um, depois o outro, e assim por diante. Se você se permitir a sensibilidade, verá que um se acomoda melhor em seu colo, outro tem cordas mais suaves que não rasgam seus dedos, o terceiro tem um som doce e profundo, mas que é encoberto por sua voz.

E assim você passará uma manhã, uma tarde e quem sabe iniciará a noite sem que a decisão seja tomada.

Pois bem, quando chegar a noite, vá ao seu bar predileto, ouvir o músico que mais gosta.

Enquanto ele toca o violão que ele escolheu, passe os olhos para o ambiente. Você verá que cada pessoa tem sua própria alma. Não haverá uma só alma que deixe de ter uma qualidade, mas na perfeita simetria, no outro canto do bar, também não haverá uma só alma que não deixe de ter um defeito.

A questão é simples. As coisas são tão imperfeitas quanto nosso colo, nossa voz e nossa alma.
Samuel Rangel


Pessoas e instrumentos musicais - Parte II







Após aquela noite, como você ainda não tomou a decisão, surgirá a vontade incontrolável de ir à loja e fazer a escolha. E é comum você achar que é aquele violão, tampo claro, braço macio, e som doce, o violão de sua escolha.Exatamente por ter sofrido muito com isso, arrisco um conselho.

Antes de aceitar o ímpeto de ir à loja, coloque em seu colo mais uma vez o velho violão de guerra. Garanto que haverá nele também uma qualidade que você ainda não tinha valorizado. É assim mesmo! Agora a dúvida já ronda também a possibilidade de ficar satisfeito com o velho violão, mesmo sabendo que ele tem limites.

Como dinheiro não é coisa fácil, você resolve não mudar. E passará mais algum tempo com ele, até que um certo dia, o aprimoramento de seu ouvido lhe indicará um defeito grave. Esse violão não afina mais. E agora? É inevitável. Você voltará a loja.E nas paredes da loja ampliada, você verá novos modelos. A dúvida aumenta, mas o seu crescimento pessoal também exlcui de pronto algumas opções. Aquela marca não é boa, aquele não tem som e aquele outro machuca demais as mãos. E ainda que existam mais violões pendurados, dessa vez você se dedicará apenas a dois ou três. Ao contrário da primeira visita à loja, você não necessitará de mais que duas horas para fazer sua escolha. Pronto. Você escolhe, descobre que é mais caro do que imaginava, mas vai ao caixa com certa alegria.

Abraçado com seu novo companheiro você começa a dar os passos em direção a porta. Enquanto o vendedor esta embrulhando sua escolha, você fica olhando com desdem todos aqueles violões ali. Aqueles violões roubaram sua atenção por tanto tempo, mas agora você sabe que é bem pior do que aquele que você escolheu.Orgulhoso você recebe a caixa com o seu novo xodó. Agradece o vendedor como se ele fosse um padre que abençoa um casamento. E pronto. Sua alegria esta estampada em seu rosto, e quando você esta saindo da loja.. puta merda. Você passa por um cidadão tocando um piano. Você ouve aquele som encantador.



Pessoas e instrumentos musicais - Parte III



Agora você vai para a casa, feliz com o novo violão, mas não consegue tirar da cabeça o som daquele piano. E ao chegar em casa, lá vai o velho violão para a parede, feito foto de família que conta parte da sua história. Mas o novo violão vem direto ao seu colo. E você começa então a se adaptar às cordas mais leves, ao som mais doce. Seu colo fica feliz com a nova aquisição.

O tempo passará e você e seu violão farão maravilhas juntos. Você então entra em uma nova fase de crescimento. O novo instrumento não tem limites. Permite a você novas interpretações. Sua mãos vão ficando mais rápidas e mais sensíveis. Que fase maravilhosa você está. E assim seguem os dias. Até que um belo dia sua mão fica mais veloz que o violão. Você desempenha e o som não sai. Você faz mas não tem resposta. Você é mais, mas parece menos. Novamente você tem limites que não são seus.

O que fazer nessa hora?

Normalente você tentará reformar o violão antigo. Estranhamente aquele violão que estava abandonado na parede recebe sua atenção novamente. Todo o carinho que você tinha retorna de cinzas antigas. Mas ele ainda terá alguns limites. E você já olha o seu violão atual sem nenhum carinho. Existem pessoas nessa fase que emprestam seu violão, e costumam pedir emprestado dos outros também. Mas é um péssimo negócio, pois intimidade é fundamental para essa parceria. A mesma intimidade que surgiu da alegria com o instrumento que era novo. Agora você sabe que sua satisfação era proporcional aos seus limites. E agora?

Então você volta à loja, e em simples dez minutos você descobre que não tem um violão que te satisfaça. Uma irritação surge em você, e de certa forma você passará um tempo afastado da música. A insatisfação tornará seus dias sem qualquer nota ou melodia.

Você tentará buscar inspiração em outros lugares, mas a música não tem substituto.

E você descobrirá que o violão não te satisfaz por não ter os recursos do piano.

O erro foi ter escolhido o primeiro instrumento que estava ao teu alcance.



Pessoas e instrumentos musicais - Parte IV



Pois é.

Momento de escolha. Quanta responsabilidade ter que decidir algo hoje para nos acompanhar até o amanhã? Dizem que pessoas não mudam, mas embora a madeira mantenha-se parcialmente intacta, a alma cresce, e os limites vão diminuindo. Com limites menores o horizonte é maior. E mesmo a madeira, essa parte sólida que acomoda a alma, por não ser tão sólida assim ela apresenta sinais de cansaço. A tensão das cordas não é a mesma. Existe um certo desgaste que precisa ser aceito como natural. Então não há solução. A escolha depende de sorte?Não.O instrumento precisa de cuidados, de uma atenção especial, de acordo com sua natureza.

Além disso que é necessário entender é que o tempo passa de forma implacável, e só há uma coisa que perpetuará o relacionamento entre o músico e o instrumento: A MÚSICA. Por mais que o instrumento esteja cansado, e suas mãos sejam mais rápidas do que as cordas do violão, um dia suas mãos ficarão mais lentas. Mas a música não acaba aí. Notas rápidas? Você começará a entender que quanto melhor for colocada a nota, mais tempo ela poderá permanecer na partitura.

É necessário que o seu crescimento não se resuma à agilidade, pois um dia você fatalmente a perderá. É necessário algo mais profundo. A música na relação entre o instrumento e o músico, esta como o amor na relação da pessoa com a vida.

E o que é amor? Onde encontrar? Como identificá-lo?

Não há um só conselho sábio que se possa dar nesse sentido, pois como os instrumentos e os músicos, cada um tem suas próprias características, seu conceitos, qualidades e defeitos que o tornam único. E se único é, como buscar em um sábio algum conselho? Se ele for realmente sábio, o silêncio será a resposta.

Apenas não esqueça da música. Aceite os tons menores como compassos de tristeza. Alegre-se nos tons maiores quando eles surgirem em meio à melodia. Saiba que dissonantes são úteis. As sétimas preparam, mas toda música um dia chega ao fim.

A benção é simples. Ao final... que tenha sido uma bela música.



Pessoas e instrumentos musicais - Agora um pouco de Humor





Ok. Então sem diferenciar homens de mulheres para não realimentar a detestável guerra dos sexos, podemos definir...TIPO DE HOMENS E MULHERES:

Piano: São clássicos e completos em recursos. Por isso se adaptam muito bem ao novo. São lindos e sólidos. Chamam muito a atenção, mas jamais vão acompanhar você em todos os lugares;

Violão: São populares e companheiros. Têm uma certa simplicidade. O que os torna atraentes é a companhia, isso na medida em que sabe ou não tocar. Ele dependerá de você para agradar;

Sax: São brilhantes e chamam demais a atenção. Mas dependendo da sua embocadura poderão desafinar feio. E um sax desafinando é o segundo pior instrumento que se pode ouvir. Mas afinado sua sensualidade chama a anteção, quem sabe mais do que você queira.

Violino: Chamam a atenção pela sua fragilidade, que não combina com a grandiosidade do som que emitem. Como não são temperados exigem uma cordenação dupla. A mão esquerda precisa saber que como o tom não é exato, terá que ser flexível e variar em um sensível trêmulo. Já a mão direita, que coordena o arco (Não é vara não engraçadinho), terá que ser firme o suficiente para manter o atrito das cordas. Exatamente. É um instrumento que precisa de atrito. E quando desafina, Meus Deus!!! É o som mais irritante no atrito.

Tuba: Ao escolher a tuba você sabe que não vai tocar em banda de rock, mas no lugar certo e na hora certa, ela faz uma bela base.

Gaita de Boca: São companheiros incríveis. Onde você estiver, basta você meter a mão no bolso e lá está ela. O único defeito é que só, ela dificilmente ultrapassará os limites melancólicos do Blues.

Cello: Lindo, profundo e culto, mas é ruim de carregar e é o mestre da melancolia. Você jamais irá a um Pagode acompanhado de uma Cello.

Surdo: Esse sim. Não exige muito de você, apenas que acompanhe o rítmo da música. Exatamente por isso o surdo tem um recurso interessante. Se perdeu? Não sabe o que fazer? Meta a mão que o resto da banda vem atrás.

Um abraço a todosSamuel Rangel

Postado por Samuel Ricardo Rangel Silveira às 20:54

SER PAI por Samuel Rangel


Domingo, 19 de Agosto de 2007

Ser pai, aos olhos tolos de quem jamais será,
É sorrir ao nada e chorar em vão.
A paternidade, se observada pelos materialistas,
É ter algo mais e ver crescer seu patrimônio.
Os olhos brilhantes do pai que admira seu filho, correndo no verde, pisando na areia de uma praia, parecem carregar sonhos e utopias.
O toque meigo de um braço forte, que aconchega em seu peito pequena criatura, demonstra a delicadeza de uma amor arrebatador.
Os joelhos dobrados e os olhos na mesma altura, de um pai que conversa de igual para igual e brinca com seu filho, revela que o amor de pai faz o tempo voltar atrás.
Ora, eu nunca pedi que entendessem essa minha vontade de fazer cócegas em meu filho, ou então essa compulsão de erguê-lo sobre os ombros, deixá-lo de pernas para o ar. Nem eu mesmo entendo tais loucuras, mas posso dizer que embora meu filho não entenda, ele sorri, e muito.
A palavra difícil para um homem– AMOR, na boca de um pai que dirige-se ao filho, é na realidade a prova de que amor de pai vence barreiras ao olhar um filho.
Ainda que eu não fosse pai, queria que Deus me permitisse saber destas coisas, pois quem sabe eu me esforçaria para ter filho antes e mais talvez.
Não posso ver no rosto de meu filho a tristeza da despedida, todo dia, ao deixar a casa de sua mãe.
Não posso expressar o tamanho da saudade daquele pequeno moisés que durante dois meses acomodou o sono do meu filho ao meu lado.
Não se pode falar sobre a falta que faz o toque de seu pequenino dedo nas minhas mãos cansadas, contempladas pelos meus olhos incansáveis.
Ser pai é muito mais do que ter um filho. Nesses tempos onde Ter é mais valorizado do que Ser, Ser Pai é ser ao filho. Muitos têm filhos, mas quantos realmente são pais?
Peço a Deus que me permita ser o melhor pai que meu filho queira ter, e que isto ajude meu filho a ser um grande e bom homem, pois por certo um dia ele também terá seus filhos, e tenho certeza, desejará ser um excelente pai, o melhor que seus filhos possam ter.
Postado por Samuel Ricardo Rangel Silveira às 20:03

O CENTAURO - Por Samuel Rangel



Foto gentilmente cedida pela fotógrafa Ju Ribas
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Junto com alguma tristeza e esses meus cabelos brancos, a vida cuidou de me trazer alguma experiência. Com cada erro tolo de uma criança preocupada em ser especial, um tapa estalado fazia questão de nos ensinar nosso lugar. Cada oração profana dirigida ao destino, implorando uma história fabulosa, ecoava no chão de nossa existência simples, humilde e verdadeira.Perdido entre os vales da tolice e da desilusão, errando pelo mundo da verdade, nós, um pouco homem e um pouco animal, perdemos o domínio do racional e tentamos sentir cheiros, seguir instintos, espreitar por entre a vida oportunidades de ser perfeito.Não é o que somos, pois com a sabedoria que só a razão tem, ela senta e espera. De tempos em tempos o centauro vê a investida da razão, com vestes bordadas em tons mórbidos, carregando em seu estandarte a estampa de verdades temperadas entre o amargo da desilusão e o doce do aconselhamento. De tempos em tempos o centauro não poderá se mover, e absolutamente inerte, ele irá observar um emaranhado de caminhos ao seu redor. A cabeça pensa e tenta coordenar seus movimentos, mas seu corpo confuso não a obedece. Enquanto a razão, com o dedo branco lhe aponta um sentido, com a aflição do animal suas pernas titubeiam. Socam o chão com força no ruído surdo de palavras que não conseguem dizer. Tentam fugir da razão implorando separar-se da parte humana.Parecendo querer derrubar de seu dorso o lado racional, a parte animal usa de sua destreza para mostrar sua fúria e inconformismo. E a razão não fica inerte. Sem opção, como de costume, tentando dominar a situação, passa a castigar o lado animal, e em verdadeira aberração, usa de seu açoite para repreender a parte revolta. A cada golpe, a razão, sente em seu próprio corpo a dor do castigo, e de forma tão contundente quanto à parte irracional, começa a se revoltar, aumentando os golpes. Desespero. Desespero louco. Loucura que leva o centauro ao chão. Esvaído em sangue moral, o pobre animal se prostra ao chão. Ali, na mais rasteira existência, agredido e ofendido pela sua própria natureza, razão e animal percebem que não podem se apartar um do outro. Na desilusão do impasse insolúvel, a harmonia se revela impossível, e na inércia que só a impotência causa, de forma contraditória, inexplicável e absurdamente inesperada, a paz retorna. Uma paz que traz em si um semblante triste, pois não é a paz que a solução proporciona. É a paz da complacência. A paz entre suserano e vassalo. A paz entre senhorio e escravo. Paz entre domínio e submissão. Sem que se possa entender a quem o domínio se ofereceu, recomposto de suas dores e cansaço, o centauro voltará a se erguer, não tão impávido como antes da luta. Não tão afoito. Nem tão racional e nem tão animal, ele se erguerá sobre suas patas e uma harmonia forjada irá se estabelecer por algum tempo. Consciente de seus limites, cabeça e pernas tentarão evitar um novo confronto. A cabeça não tentará impor de forma tão rigorosa os caminhos da razão, e as patas não tentarão novamente embrenhar-se pelos caminhos do instinto. Assim levarão por algum tempo o corpo daquele Ser por entre os vales da vida, até que nova luta será travada. Sem solução o problema se repetirá, mas cada vez de forma mais tênue, menos violenta e menos prolongada. A solução final virá com o tempo, quando as pernas do animal, surradas pelo tempo, perderem a avidez da juventude, e quando a cabeça grisalha, aprender que não pode cavalgar um animal que não ame.Triste e belo destino de um sagitário, que deverá esperar que o tempo lhe ensine a ser feliz, mas que por outro lado, tem a benção de não ser dominado por este ou aquele mundo. O sagitário não seguirá os caminhos da razão, e por isso muito sofrerá, porém, como estará marginando o mundo da ilusão, terá um horizonte maior e mais colorido. Maravilhosamente, o sagitário terá o privilégio de pensar como homem nas coisas que só o animal pode ver.Samuel Rangel – 12/DEZ/2002
Postado por Samuel Ricardo Rangel Silveira às 18:48

SEM TEMPO (Samuel Rangel)

Sexta-feira, 14 de Setembro de 2007


Dia louco, feroz, vindo aos tapas e empurrões.Hoje é um daqueles dias que os minutos se empurram de encontro ao fim do dia, e com certeza, será uma daquelas noites em que atravessaremos a cidade para conseguir estar onde precisamos e no momento certo.
Hoje é um daqueles dias que eu não poderei escrever algo mais profundo, pois mil sons de tic-tac me tiram a inspiração dizendo que eu estou atrasado e que não vai dar tempo.
Hoje é um daqueles dias que o abraço que tanto gostaria de dedicar, terá que ser um pouco mais apressado, pois até os segundos em que nosso corpo brinda à amizade estão contados como impostos.
Hoje é um dia daqueles.
Mas já que passarei voando pela vida de todos, apenas deixo um abraço a todos, esperando que entendam que por mais loucos que sejamos, nossos pés ainda não abandonaram o chão.Então toma aí um abraço forte.
Se você não me conhece toma dois, pois no início do tratamento é bom reforçar a terapia.Tenham todos um bom dia.
Samuel Rangel
Ps.: Imagine ao menos que ao ponto final deste texto, eu abracei demoradamente meu filho.